Política, Economia, Sociedade, Internacional e Direito
| O ballet da sessão clínica: entre o cheiro e o choro |
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| Escrito por Danieli Machado | |
| Dom, 01 de Agosto de 2010 00:00 | |
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Ela enxugava uma lágrima agora. Estava tão emocionada que talvez seja por isso que entendeu há exatamente três segundos o significado para o nada que acabava de pronunciar. Não se trata de uma discussão sobre o nada ou algo parecido com quê os filósofos costumam perder ou ganhar o tempo que a isso lhes são devidos.
Era noite e fora ao teatro municipal com a lembrança remota de que pela manhã tivera uma emoção muito forte. Sua alma ainda possuía as marcas indeléveis dos choros que não pode exprimir ao ouvir os segredos de alguém que ela nunca mais vai ver ou ter contato tão próximo. Sente saudades dos segredos e reflete: talvez ele chore agora sozinho em sua casa. Talvez ele esteja sob a euforia momentânea da droga que o interrompe diante de sua existência frágil. Ele dizia que às vezes chorava muito. Ele dizia que às vezes cheirava muito. E ao pronunciar estas palavras a palavra surgia como o ballet que ela fora assistir. O ballet começa o seu espetáculo colorido e simétrico de uma canção triste que silencia a discrição da platéia que ali estava. Em cada ato das cenas apresentadas, os aplausos, também simétricos, compõem e completam o que dá a vida onde a arte se presentifica como entusiasmo das sensações possíveis que podemos criar. Mais lágrimas escorriam-lhe a face. Enxugava-as e quando pensava que não iria mais usar o lenço de algodão branco bordado que ganhara de sua avó, retornava com ele ao rosto para secar o seu colo que estava mergulhado em lágrimas. Ficou ali pensando, refletindo sobre o que ouvira pela manhã naquela sessão de análise. Era algo parecido com a dança das bailarinas e dos bailarinos. Era algo parecido com a simetria das cores dos babados das saias das bailarinas que exalam o cheiro das flores através da música ali presente. Havia alguma coisa do movimento ritmado da dança e da canção triste que parecia muito com o que o paciente ganhara quando entre o cheiro e o choro ele sorriu e ficou surpreso com a novidade que suas lembranças lhe traziam. Sorriu e suspirou fundo. Ela, diante das perguntas feitas pelo paciente sobre o não saber se vive diante de sua realidade, aposta na idéia de que as ob-sessões que não terá com esse paciente confirma o desejo de sua existência: tornar-se analista. Não sabe se chora, mas pressente que cheira.
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