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Os Soldados do Tráfico e a Guerra de Quarta Geração PDF Imprimir E-mail
Política
Escrito por Alex Vander   
Qui, 01 de Julho de 2010 00:00
Em recente relatório da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), o país tomou conhecimento do treinamento de “soldados do tráfico” nas matas do Rio de Janeiro. Tal constatação vem confirmar o real desenvolvimento desse novo tipo de guerra, de quarta geração, sobre a qual se tem debruçado muitos analistas estratégicos ao longo dos últimos anos.
Já é sabido que desde o final da Segunda Guerra mundial, passando pela guerra do Golfo e dos Bálcãs, o mundo começou a assistir ao surgimento de novas ameaças, para as quais o soldado convencional não está preparado. Robert Kaplan, no l ivro “O Retorno da Antiguidade” faz referencia a um texto do Coronel dos EUA Ralph Peters “Fighting for the future: Will America Triunph?”, onde destaca que os soldados norte-americanos estão muito bem preparados para derrotar a outros soldados, mas que, por desgraça, os novos inimigos que provavelmente irão enfrentar não serão soldados, dotados da disciplina e do profissionalismo conhecidos no ocidente, senão “guerreiros” primitivos, erráticos de lealdade volúvel, acostumados à violência e sem interesse na ordem civil.
Essa descrição do novo inimigo enquadra perfeitamente os guerreiros do narcotráfico, citados no informe da ABIN, assim como as gangues da periferia ou mesmo os operadores dos grandes cartéis do tráfico de armas e de drogas, as milícias (como às do Rio) e as forças mercenárias.
Alguém poderá dizer, e é verdade, que esses guerreiros sempre existiram. No entanto, a guerra de quarta geração aponta a que e ssas “velhas novas ameaças” sejam estrategicamente manipuladas em favor de interesses de grupos econômicos ou de Estados irresponsáveis. Além disso, todas essas novas ameaças são fruto do caos e da desordem que toma conta das sociedades em todo o mundo e, por estarem dentro de um contexto globalizado e potencializadas pelas novas tecnologias disponíveis, como as telecomunicações, a internet e todos os seus derivados, saem de um nível baixo de delinqüência, focos de terror localizado, etc., para um nível de influência estratégica, como a Al Qaeda, por exemplo.
Outro aspecto interessante é que esses novos “guerreiros”, conscientes de suas “limitações convencionais” buscarão todas e cada uma das debilidades que apresenta o Estado e sua cultura. Se os interesses forem realmente relevantes ou vitais, serão empregados todos os meios necessários; por isso desenvolvem a também chamada “guerra irrestrita”, onde não existem có digos éticos, somente a crua violência, para a qual são treinados na vida, nos desertos, nas montanhas ou nas matas, como as do Rio.
Dessa forma, a guerra de quarta geração, definitivamente, nos apresenta outra classe de soldado, mais violento e melhor armado e com articulações nos diversos campos e níveis do poder estatal. Abrange os exércitos de adolescentes assasinos na África Ocidental, as máfias russas e albanesas, os traficantes de droga latino-americanos, os terroristas suicidas da Cisjordânia e os seguidores de Osama Bin Laden, que se comunicam por e-mail e Messenger.
Cabe ressaltar, também, que essas novas forças florescem com freqüência entre os milhões de jovens desempregados nos países menos desenvolvidos, fomentados pelo hiato socioeconômico gerado por uma “globalização darwiniana” que supõe a sobrevivência dos mais fortes. Esses guerreiros também são ex-presidiários, “patriotas étnicos”, intermediários de armas e drogas e militares fracassados, sejam de antigos exércitos comunistas, de facções e tribos africanas ou militares do terceiro mundo, sujeitos à corrupção e à falta de perspectivas. Por isso, os Estados que não apresentarem a disciplina, a dinâmica e a engenhosidade suficientes para promover um real desenvolvimento sócio-econômico tenderão a gerar um número cada vez maior desses novos guerreiros.
O que ocorre nas matas e favelas cariocas ocorre da mesma forma no Paquistão, onde a formação de guerreiros se dá nas escolas islâmicas dos bairros pobres, tomando como alunos as crianças desses subúrbios degradados, que não têm mais identidade moral nem patriótica (falha da família, da igreja e do Estado). Daí a facilidade de encontrar jovens que se martirizam, seja por uma vida melhor na eternidade (caso do mundo islâmico), seja pela total falta de esperança e perspectiva de futuro (caso dos soldados do tráfico nas favelas d o Rio).
O grande perigo, portanto, é que desde os ataques aos sistemas informáticos do Estado, até a chamada “Guerra Social”, passando pelo terrorismo e pelas armas QBN, tudo vale para esses novos personagens e que, além disso, o campo de batalha, estendido, perde suas dimensões físicas e jurídicas, implicando em uma grande dificuldade para determinar o que é e o que não é um soldado; o que é e o que não é um objetivo; o que é e o que não é uma ação de guerra; o que é e o que não é um delito; o que é civil e o que é militar; o que é guerra e o que não é. Tanto é assim, que o que para nós é considerado terrorismo, para o “guerreiro da Quarta Geração”, pode ser a justiça (que o Estado não brinda) ou a mais sublime expressão da arte militar, se refletimos sobre a dimensão estratégica dos atentados de 11 de setembro de 2001, no marco de um conflito entre um Estado e um não-Estado.
A resposta a tudo isso é muito subjetiva e de difícil aplicação, como são os próprios conceitos que tentam delinear essa “nova guerra”, que já é, sem dúvida, uma realidade que deve ser levada em conta, urgentemente, pelas políticas de Estado e, em conseqüência, pela estratégia militar ou de segurança pública, na capacitação de pessoal, seleção de meios e na formulação de novas doutrinas de preparo e emprego.

Um grande abraço!
Na escuta!

Alex V. L. Costa

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Autor(a) deste artigo: Alex Vander