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Seu passado tem cheiro de maçã PDF Imprimir E-mail
Escrito por Danieli Machado   
Qui, 01 de Julho de 2010 00:00

O cheiro de maçã causava um enjôo que ela não sabia de onde vinha.  Sentia náuseas, dor de cabeça e frio. Tremia e tentava entender porque isso acontecia. Nunca conseguiu achar uma explicação. Nunca aprendera sobre a (in)grata sensação estranha que seu passado lhe mostrava quando via maçãs no supermercado e ou na feira dominical da rua estreita perto de sua casa. Toda vez que ela via essa fruta saía correndo para não sentir seu cheiro e ficava a uma distância onde ela pudesse apenas vê-la. Tinha uma emoção forte quando isso acontecia. Tinha muitas emoções. Estava ali a maçã que tanto a assombrava e ou a encantava. Assombrada, tinha no olfato lembranças de uma infância que nunca fora esquecida e, no encantamento, tinha a certeza de que era privada de uma resposta que o sentido de sua visão lhe dava, pois ficava espantada quando necessitava de sair correndo pelo medo que sentia quando seu passado lhe trazia nessas emoções fortes provocadas por um cheiro que ela não se esquecia. Era uma sensação estranha que talvez não possa ser explicada porque não há como definí-la. Só tem certeza de uma coisa, eram estranhas, por isso repete aqui o que não sabe.

 

Teve essa lembrança porque esse passado acabou de ser mostrado quando ela chegou àquele parque de diversões que havia se instalado há um mês, próximo de sua casa. Decidiu fazer um passeio depois que chegou de um dia inteiro cheio de tarefas rotineiras de um trabalho cansativo.

Sorriu quando se deparou com o tamanho da roda gigante, com o colorido dos balões e até mesmo com o barulho horrível da música brega que tocavam no parque. Saiu de seu cotidiano, e nesse mesmo dia descobriu que seu passado tinha sabor de algodão doce, gosto de pipoca de carrinhos de pipoqueiro, carrossel girando deixando as mães das crianças que neles andam, tontas, trem fantasma sem fantasmas, tiros ao alvo que não machucam, roda gigante que roda bem alto, carrinhos bate-bate velozes e brincalhões. Tudo isso sendo embalado com o volume máximo das caixas de alto-falante porque parque de diversões combina com alto-falantes altos e música brega. Sentiu saudades da infância e chorou. Ficou com àquela sensação que a maçã lhe dava quando se deparou com a barraquinha das maçãs do amor, tão coloridas e doces. Afastou-se, como é de costume, enxugou o passado há dois segundos. E a lágrima escorreu-lhe a face parando em seu colo. Ela se deu conta de que o percurso transcorrido pela lágrima despertava uma necessidade de carinho. Seu passado era carente. Aproximando-se devagar das maçãs do amor percebeu que essa foi a única vez que não conseguiu sentir o tal cheiro que tanto a incomodava. Comprou uma maçã e saiu comendo sem a medida exata do que significava a assombração e encantamento de seu passado. Sente saudades das inúmeras maças que não mordeu. Sente saudades dos amores que ficaram marcados pelas mordidas que não dera.

 

Nosso(a) colunista Danieli Machado está conosco desde Qua, 23 de Junho de 2010.

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