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Crise da Europa do Sul? O náufrago, o nadador salvador e o saltador de “bungee jumping” PDF Imprimir E-mail
Economia
Escrito por Miguel Rocha de Sousa   
Ter, 01 de Junho de 2010 00:00

A Grécia é um nadador que se afoga e que arrasta consigo os outros, a Alemanha, qual nadador salvador toma medidas impopulares, para evitar ser arrastada, ministra uma sério golpe no náufrago, para conseguir trazê-lo são e salvo para terra. Portugal no meio disto é uma espécie de saltador, no início os mercados parecem crer que é uma espécie de suicidário, mas eu tendo a crer, tal como De Grauwe, que se trata de bungee jumping.

 

 

 

 

Muito se tem falado da crise sistémica do Euro, no contexto subsequente da crise mundial de 2008, derivada do sub-prime. Os gregos mascararam as contas públicas, o que os obrigou após a quebra de confiança dos mercados internacionais a aceitar um acordo de estabilização com a UE e com o FMI. Atenas com as medidas de austeridade ficou a ferro e fogo: na Plaka de Atenas, os manifestantes gritam slogans contra o FMI e fazem frente ao corpo de intervenção. O fogo alastra entre os manifestantes, há pilhagem de lojas, e o projecto europeu parece ameaçado.

 

Portugal e Espanha foram depois adicionados como membros candidatos ao próximo efeito dominó de varrimento do euro, por Joseph Stiglitz, prestigiado economista Nobel de 2001 (convém lembrar, que mesmo os sábios também se enganam!), por Nouriel Roubini, profeta que anteviu a crise de 2008, mas que sugeria que Portugal e Grécia fossem expulsos da zona euro, e finalmente, Simon Johnson, (ex economista chefe do FMI), argumentava que o défice português era insustentável.

 

Mas vamos à realidade. Portugal não é a Grécia. Portugal endividou-se em demasia. O défice depois de um severo corte em 2008, em que Teixeira dos Santos conseguiu reduzir o défice abaixo dos 3%, levou-nos a uns inauditos 9% em 2009. Temos portanto tradição de conseguir cumprir, forçando as metas. O PEC foi renegociado, as revisões em baixa do crescimento português por todas as instituições mais respeitadas, FMI, BM, UE, OCDE, imediatamente comprometem a trajectória de ajustamento até 2013. Estaremos a ser penalizados por ser honestos? Talvez.

 

Há no entanto que salientar o seguinte:

A divida pública em percentagem do PIB, no Reino Unido, na Bélgica, no Luxemburgo é maior do que a Portuguesa. Então porque este tamanho ssurúru? Porque os mercados não acreditam na nossa capacidade de pagar essa mesma dívida. Nos outros casos acreditam. Paul de Grauwe, um dos mais prestigiados académicos do euro, belga, flamengo, da Universidade Católica de Lovaina, fala mesmo de um racismo dos Nórdicos em relação à Europa do Sul. Daí, se fala mesmo de um fundamentalismo racista sem estar baseado nos fundamentals económicos. Se esta mesma situação se passasse com as mesmas variáveis com a Alemanha, nada ocorreria? Talvez.

 

Há no entanto que ser cauteloso. Note-se que quando um prémio Nobel como Stiglitz falou da possibilidade de falência de Portugal e da Espanha, em declarações ao El País, convém escrutinar a sua opinião. O peso da Grécia e de Portugal na moeda única é diminuto, o efeito de dominó no euro é reduzidíssimo. No entanto, se houver um alastramento a Espanha, para além de a economia portuguesa ficar, de facto, de rastos, então ai poderá estar de facto em causa o euro. Mais preocupante é no entanto Stiglitz afirmar que Portugal está numa situação de pré-crise pior do que a Argentina estava no seu parity-fixing um peso um dólar, em 2000. A ver vamos, a situação pode ser pior, mas a UE tem mais instrumentos do que a Argentina que teve de se socorrer de imediato de ajuda externa.

 

No fundo passámos a ter uma cisão entre economistas europeus, que defendem, e a meu ver bem, o euro, e os economistas americanos, por exemplo Feldstein, esse mago-arauto da desgraça previa guerras entre as nações europeias em 1999, quando o euro nasceu. Por outro lado, por exemplo Krugman, recentemente também se pronunciou da possibilidade de lhe darem razão que o euro e, segundo muitos economistas americanos, deverá desaparecer. Não sejamos naives, aos EUA interessa e muito uma quebra de confiança no euro, isso permitira, voltar a re-afirmar o dólar como moeda dominante quase incontestada. Há também um limite dessa possibilidade, os americanos, relembrando a Segunda Grande Guerra, não quererão por certo guerras monetárias à la Feldstein.

 

Não podemos esquecer que a senhora Merkel também irá ter eleições em breve, e terá de fazer face a oposição interna. Mas a expulsão do euro é uma afirmação, no mínimo descabida. Obviamente que o argumento técnico, é o das zonas monetárias óptimas (Mundell e McKinnon), mas a vontade política, nomeadamente face a um verdadeiro federalismo fiscal, será a única saída viável. Não se trata de fugir em frente, mas sim de aprofundar um projecto que tem pelo menos meio século – a UE. Não esqueçamos que a expulsão de qualquer estado da zona euro, consiste numa espécie de sentença de morte. Porquê? Muito simplesmente, porque as dívidas continuam denominadas em euros e as receitas surgirão na nova moeda (desvalorizadíssima) – Seria um crescimento empobrecedor, por certo, i.e. se houvesse eventualmente crescimento.

 

Há algumas medidas impopulares que podem ser tomadas. Tomemos o caso da crise da Irlanda. Cortaram os salários em 20%, cortaram o 14ºmês, mas reduziram o IVA em 0,5% para tentar estimular crescimento das empresas. O equilíbrio orçamental é alcançável a custo, mas a ideia do famigerado teorema de Haavelmo, em que o aumento de gasto teria de ser acompanhado de igual aumento de receita, não é suficiente O problema, é que de facto não basta deixar o défice e a dívida na mesma. Temos efectivamente de cortar. Há necessidade de vontade política para isso. Talvez um verdadeiro bloco central nos desse maior credibilidade. Há no entanto um aspecto crucial: A credibilidade não se importa, ganha-se. E facilmente se perde.

 

A meu ver a situação, que é grave, não o ocultemos, mas pode ser descrita por uma simples metáfora. A Grécia é um nadador que se afoga e que arrasta consigo os outros, a Alemanha, qual nadador salvador toma medidas impopulares, para evitar ser arrastada, ministra uma sério golpe no náufrago, para conseguir trazê-lo são e salvo para terra. Portugal no meio disto é uma espécie de saltador, no início os mercados parecem crer que é uma espécie de suicidário, mas eu tendo a crer, tal como De Grauwe, que se trata de bungee jumping. A rede ou a corda que a prende é a UE. A construção europeia de mais de meio século não pode ser agora posta em causa.

 

Miguel Rocha de Sousa – Investigador NICPRI-UE; Prof. Auxiliar Dep. Economia-UE.

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NICPRI-UE, centro financiado pela FCT.

 

Nosso(a) colunista Miguel Rocha de Sousa está conosco desde Qui, 20 de Dezembro de 2007.

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