Política, Economia, Sociedade, Internacional e Direito
| A Demanda da Unidade |
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| Escrito por Ricardo Gil Soeiro | |||
| Qui, 10 de Junho de 2010 14:44 | |||
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Uma leitura de “Der Tod des Vergil”, de Hermann Broch
Num tempo voraz de uma pós-modernidade narcisista que tudo devora, impõe-se a lição da lentidão que a literatura ainda pode e deve proporcionar. Lentidão plena de sentido e de interrogações pulsantes que nos desafiam e nos interpelam à margem do ruído ensurdecedor do universo de epílogo em que hoje mergulhamos. “Der Tod des Vergil” (A Morte de Virgílio), do escritor austríaco Hermann Broch, constitui um paradigma privilegiado de uma tal lição de lentidão majestática. Trata-se, em última análise, de uma imensa obra filosófica e lírica que, com os seus quatro andamentos (a utilização da imagem musical é proposta pelo próprio escritor), propõe ao leitor uma viagem espiritual e mística, onde se problematiza de um modo candente a própria essência da arte.
Deslizando, no início desse “auto-comentário lírico”, pelas ondas do mar (que são, concomitantemente, ondas de recordação), e jazendo no barco que o levará a Brundísio, mas que simbolicamente o conduzirá às margens da morte, o poeta latino decide, à beira da morte, destruir a “Eneida”. Na medida em que considera a sua obra um produto de uma aspiração estética que, potencialmente, poderá minar a dimensão ética que cumpre reconhecer na labor artístico – pois “a beleza é dotada de um poder demoníaco que tudo absorve,/abarcando todas as coisas no seu equilíbrio saturnino;/precisamente por isso é uma recaída na pré-divindade,/precisamente por isso é para o homem uma memória de [qualquer coisa,/que aconteceu antes da presciência,/memória de uma era transitória da criação, anterior aos deuses” [1], Virgílio sente-se, pois, dilacerado entre a perfeição estética e a função ética da obra (aquilo a que o poeta W. B. Yeats chamou a escolha entre a perfeição da vida ou a perfeição da obra [2]). Este dilema desagua, numa primeira instância, na deliberação de destruir o manuscrito, numa lógica de sacrifício em que a morte do autor e da obra se enlaçam e em que a poesia se revela como “a mais estranha de todas as actividades humanas, a única consagrada ao conhecimento da morte” (“dieser seltsamsten aller menschlichen Tätigkeiten, der einzigen, die der Todeserkenntnis dient” [3]). Esta descida ao inferno, simbolizada pelo fogo consumidor, é seguida de um regresso do solo fértil, na transmutação do sacrifício da obra numa dádiva ao outro (neste caso, Augusto, que personifica o mundo da acção ético-política, do risco e da criação do tempo, em contraste com a hipocrisia que denuncia em Virgílio, quando este último se refugia na contemplação da beleza). George Steiner, no ensaio “A Kind of Survivor”, classifica a obra de Broch como uma espécie de epílogo ao humanismo, aproximando a tónica que é colocada no silêncio com o fascínio que essa categoria exerce sobre artífices da palavra como Kafka ou Wittgenstein: “Broch, who seems to me the major European novelist after Joyce and Mann, is a defining figure. His “Death of Virgil”, his philosophic essays, are an epilogue to humanism. They focus on the deed which should dominate our rational lives so far as we still conduct them, which should persistently bewilder our sense of self – the turn of civilization to mass murder. Like certain parables of Kafka and the epistemology of the early Wittgenstein, the art of Broch goes near the edge of necessary silence. It asks whether speech, whether the shapes of moral judgement and imagination which the Judaic-Hellenic tradition founds on the authority of the Word, are viable in the face of the inhuman. Is the poet’s verse not an insult to the naked cry? [4]. “Não será o verso do poeta um insulto ao desnudo pranto?” – esta constituirá uma interrogação a que Broch (e o próprio Steiner) jamais se furtará ao longo de toda a sua obra. Orfeu, demoniacamente preso nas malhas da beleza [5], não logrou ser portador da salvação para a humanidade, tendo sido, também ele, uma vítima e um exemplo paradigmático da impotência do artista face às exigências da vida fáctica, facto que impele Virgílio a confrontar-se com “o pesado portão do pavor [...] escancarado” e a abraçar a sua decisão de queimar a “Eneida”. Poeta à sua revelia (segundo as justas palavras de Hannah Arendt [6]), Broch rejeita radicalmente as teorias da “l’art pour l’art”, assumindo o imperativo ético a que subjaz toda a sua obra e que se concretiza no “Leitmotiv” “nocht nicht und doch schon” (“ainda não e porém já”) que obstinadamente percorre “Der Tod des Vergil.” Na obra “Utopia e Disincanto. Storie, speranze illusioni del moderno” (1999), Claudio Magris descreve esta obra como um esforço extremo da linguagem para dizer a própria extinção no silêncio, o último gesto da forma na orla do informe; de acordo com o ensaísta italiano, “‘La morte di Virgilio’ ha una straordinaria potenza nell’evocare le corde essenziali della vita, l’amore, l’angoscia, la colpa, la felicità, il sogno e la morte. Broch è riuscito a scrivere un’opera arditissima e tuttavia comprensibile, intrisa di problematica filosofica e tensione conoscitiva eppure sciolta in un canto lirico; è riuscito a creare un linguaggio che, pur denso di concetti e di costruzioni astratte e talora pesanti, si risolve in musica e sembra tornare alle sorgenti originarie di ogni espressione” [7]. “Der Tod des Vergil” é, em suma, uma obra magnífica, dotada de uma poeticidade ímpar que nos prende no enleio das suas ondas da Palavra; aprendamos também nós com a lição que nos lega, com essa demanda da unidade (Blanchot) que em nós ainda insiste em perseverar.
Notas:
[1] “Vide”: “dämonisch allesaufnehmend ist die Schönheit,/alleseinschliβend ihr Saturnisches Gleichgewicht,/ebendarum aber auch ein Rückfall ins Vor-Göttliche,/ebendarum Erinnerung des Menschen an etwas, das noch/vor seinem Vor-Wissen stattgehabt hat,/Erinnerung an eine vor-göttliche Werderzeit der Schöpfung” Hermann Broch (1994), “Der Tod des Vergil”, Frankfurt am Main, Suhrkamp Verlag, p. 113.
[2] O poema em que tal escolha está expressa intitula-se justamente “The Choice”: “The intellect of man is forced to choose/Perfection of the life, or of the work,/And if it take the second must refuse/A heavenly mansion, raging in the dark./When all that story’s finished, what’s the news?/In luck or out the toil has left its mark:/That old perplexity an empty purse,/Or the day’s vanity, the night’s remorse” W. B. Yeats (2007), “The Choice”, Poems of William Butler Yeats, Raleigh, NC, Hayes Barton Press, p. 344.
[3] Broch, Hermann (1994), “Der Tod des Vergil”, Frankfurt am Main, Suhrkamp Verlag, p. 77.
[4] Steiner, George (1967), “Language and Silence: Essays on Literature, Language & the Inhuman”, London, Faber and Faber, p. 149.
[5] “Vide”: “Und nichts anders muβte es um Orpheus und um sein Gedicht bestellt gewesen sein, da er ein Künstler, da er ein Dichter gewesen war, ein Bezauberer der Lauschenden, Sänger wie Hörer gleicherweise dämmerungsumfangen, er wie sie dämonisch der Schönheit verhaftet, dämonisch trotz seiner göttlichen Gabe, ein Rauschbringer, doch nicht ein Heilsbringer der Menschen – und das durfte er niemals werden: der heilsbringende Führer nämlich hat die Sprache der Schönheit abgestreift, er ist unter ihre kalte Oberfläche, unter die Oberfläche der Dichtung gelangt, er ist zu den schlichten Worten vorgedrungen, die kraft ihrer Todesnähe und Todeserkenntnis die Fähigkeit gewonnen haben, an die Versperrtheit des Nebenmenschen zu pochen, seine Angst und seine Grausamkeit zu beruhigen und ihn der echten Hilfe zugänglich zu machen, er ist vorgedrungen zu der schlichten Sprache unmittelbarer Güte, zur Sprache der Erweckung. War es nicht auch eben diese Sprache, die Orpheus gesucht hatte, als er, Eurydike zu suchen, sich aufgemacht hatte zum Abstieg ins Schattenreich? war nicht er gleichfalls ein Verzweifelter gewesen, einer, der des Künstlers Ohnmacht zur Bewältigung menschlicher Pflicht erkannt hat?” Hermann Broch (1994), “Der Tod des Vergil”, Frankfurt am Main, Suhrkamp Verlag, p. 130.
[6] Em “Hermann Broch: 1886-1951”, incluído no magnífico livro “Men In Dark Times”, Arendt declara: “Hermann Broch was a poet in spite of himself. That he was born a poet and did not want to be one was the fundamental trait of his nature, inspired the dramatic action of his greatest book, and became the basic conflict of his life. [...] Because literature did nothing, Broch turned away from literature, he rejected philosophy because it was limited to mere contemplation and thinking, and ended by placing all his hopes on politics. Broch’s central concern is always redemption, redemption from death, and he is just as much concerned with redemption in his politics as in his epistemology or his fiction” Hannah Arendt (1968), “Hermann Broch: 1886-1951”, Men In Dark Times, New York, Harcourt, Brace & World, Inc., pp. 111, 149.
[7] Magris, Claudio (1999), “Aldilà del Linguaggio. L’Opera di Hermann Broch”, “Utopia e Disincanto. Storie, speranze illusioni del moderno”, Milano, Garzanti, p. 223.
Referências bibliográficas:
Arendt, Hannah (1968), “Hermann Broch: 1886-1951”, Men In Dark Times, New York, Harcourt, Brace & World, Inc., pp. 111-151.
Blanchot, Maurice (1959), “»La Mort de Virgile«: La Recherche de l’Unité”, Le Livre à Venir, Paris, Gallimard, pp. 160-172.
Broch, Hermann (1994 [1945]), “Der Tod des Vergil”, Frankfurt am Main, Suhrkamp.
Magris, Claudio (1999), “Aldilà del Linguaggio. L’Opera di Hermann Broch”, “Utopia e Disincanto. Storie, speranze illusioni del moderno”, Milano, Garzanti, p. 223.
Molder, Maria Filomena (2005), “O Absoluto que Pertence à Terra”, Lisboa, Edições Vendaval.
Yeats, W. B. (2007), “The Choice”, Poems of William Butler Yeats, Raleigh, NC, Hayes Barton Press, p. 344.
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