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Economia
Escrito por Otto Nogami   
Sáb, 01 de Maio de 2010 00:00

 

 

Em vista da baixa capacidade de formação de poupança doméstica da economia brasileira, muito se discutiu nas últimas décadas sobre a alta dependência do Brasil ao capital estrangeiro para os investimentos necessários ao setor produtivo da economia para se promover o processo de crescimento e desenvolvimento. Ao longo do atual governo, que iniciou em 01 de janeiro de 2003, e até 31 de outubro de 2009, ingressou no país um montante pouco superior a US$296 bilhões, segundo dados do Banco Central do Brasil. Até 2007 esta cifra representava 39,1% do total canalizado na formação bruta de capital fixo no Brasil, o que confirma a alta dependência do país ao investimento estrangeiro direto.

 

Em contrapartida, os investimentos estrangeiros diretos realizados por investidores brasileiros no exterior, no mesmo período, totalizaram pouco mais que US$63,2 bilhões. O gráfico I mostra o comportamento desses investimentos, observando-se ao longo do período analisado que eles apresentam uma tendência de alta. Que razões justificam esta característica? Se correlacionarmos os dados com a taxa de câmbio do comercial médio de cada ano, constatamos que existe uma correlação negativa entre eles, o que nos leva a concluir que o comportamento dos investidores brasileiros no exterior, em um primeiro momento, se justifica pela oscilação da taxa de câmbio.

Em outras palavras, à medida que a moeda brasileira se aprecia frente ao dólar norte-americano, aumenta o volume de investimentos diretos de brasileiros no exterior, ao contrário de uma depreciação da moeda nacional que faz o volume desses investimentos caírem. Esta relação linear cruzada entre as duas variáveis consideradas tem uma explicação de 56% de todo o comportamento; existem, portanto, outras razões que explicam a saída de recursos para investimentos no resto do mundo.

No que diz respeito a essa correlação dos investimentos com a moeda norte-americana ela se explica pelas conseqüências que podem advir das variações na taxa de câmbio. Uma valorização da moeda nacional torna os produtos exportáveis mais caros em moeda estrangeira, fazendo com que eles percam a sua competitividade preço frente aos seus concorrentes. Os exportadores de serviços também serão prejudicados, à medida que os valores dos seus serviços se tornam mais altos. Essa apreciação também afeta o movimento de capitais, fazendo com que os investidores estrangeiros, sejam diretos ou especulativos, tendem a reduzir suas remessas.

Por outro lado, essa valorização da moeda nacional faz com que os produtos importados de outras economias se tornem mais baratos, fazendo aumentar seu fluxo em direção à economia brasileira e, dependendo da natureza do produto, podem começar a concorrer com o produto nacional, prejudicando a indústria nacional. Inclusive no que diz respeito aos fatores de produção (capacidade empresarial, capital, trabalho e recursos naturais) torna-se mais vantajoso ao produtor adquirir esses recursos no mercado externo, permitindo a redução dos custos de produção, agravando ainda mais a situação da indústria nacional. No tocante aos serviços eles também se tornam mais baratos, tornando vantajoso para as empresas contratarem serviços além das fronteiras do país.

Entretanto, deve-se salientar que a redução dos custos de produção, via importação, não necessariamente melhorará a competitividade preço do produto nacional no mercado internacional. Isto exigirá às empresas buscar outras estratégias para manterem sua participação no mercado internacional. E essa solução passa, muitas vezes, pelo deslocamento da planta de produção para outros países, como China, Índia e outras economias que permitam à empresa manter sua competitividade preço. A vantagem reside no fato de que a empresa manterá seus preços em um patamar competitivo no mercado internacional e ainda se beneficiará exportando parte da sua produção ao mercado doméstico a um preço mais baixo do que praticaria produzindo dentro do território nacional. Esta é, portanto, a outra parte da explicação para que empresas brasileiras façam investimentos produtivos (construção de unidades de produção) em outros países.

As estatísticas mostram, por exemplo, que quando a moeda norte-americana atingiu sua cotação média anual mais alta de R$3,0715, em 2003, o investimento direto de empresários brasileiros foi de US$249 milhões, o menor desde então. A um câmbio médio de R$2,1771 em 2006, os investimentos diretos brasileiros atingiu a cifra de US$28,2 bilhões. Em 2008, quando o câmbio médio foi de R$1,8375, 20,5 bilhões de dólares saíram pelas mãos de investidores diretos brasileiros.

Mas existe ainda outra razão que faz impulsionar a saída de investimentos brasileiros no exterior. As políticas protecionistas, impostas por muitos países aos produtos brasileiros, fez com que empresas brasileiras, para contornar esta situação, decidissem se instalar junto aos seus mercados consumidores. Um dos casos mais antigos diz respeito às barreiras aos produtores de suco de laranja, que em 1970 começaram a se sujeitar a mais antiga barreira protecionista imposta pelo governo norte-americano a produtos brasileiros. Essa atitude trouxe problemas econômicos a toda região produtora de cítricos no interior do Estado de São Paulo, que subitamente começou a enfrentar problemas de uma superprodução que não tinha como ser escoada a outros mercados. Isto levou à destruição da produção. Apesar de todas as providências, em especial junto à Organização Mundial do Comércio, sobre a barreira comercial imposta, a necessidade de sobrevivência e o desejo de se manter na atividade levaram muitos fazendeiros a adquirirem culturas nos Estados Unidos, passando a produzir dentro do país que havia imposto as restrições de importação.

O maior grupo siderúrgico do Brasil, Gerdau, também começou a enfrentar dificuldades em colocar seus produtos no mercado norte-americano em função das barreiras impostas pelo governo, com o objetivo único de proteger a indústria siderúrgica local. Para contornar a situação, o grupo empresarial começou a adquirir siderúrgicas com dificuldades financeiras, passando a produzir e distribuir dentro do próprio território estadunidense. O volume de investimentos realizados pela Gerdau no estrangeiro, nos últimos três anos, ultrapassa o patamar de US$ 2 bilhões, visando a expansão e atualização de suas plantas industriais, bem como à aquisição de ativos em regiões com potencial de consumo de aço.

Outras empresas brasileiras, por sua vez, começam a se destacar no cenário internacional muito mais pelo domínio da tecnologia e a sua competitividade, como é o caso de empresas como Vale, Petrobrás, Embraer, Weg, Aracruz, Camargo Correa, Grupo Odebrecht, CSN, Grupo Votorantim, entre outros, estabelecendo plantas de produção junto aos mercados consumidores. São empresas que se destacam cada vez mais no mercado exterior, tanto pela qualidade de seus produtos, como pelas técnicas de gestão e inovação, permitindo a elas compartilhar o espaço com as líderes mundiais em seus ramos de atividade.

Pois estas são as principais razões que impulsionam cada vez mais empresários brasileiros e partirem para a produção além das fronteiras brasileiras. A valorização da moeda nacional que torna os investimentos, no exterior, mais baratos, o que permite um retorno do investimento em menor prazo de tempo. Esta ação muita vezes pode ser estimulada pela existência de algum movimento protecionista, o que acaba compensando ao empresário brasileiro passar a produzir junto ao seu mercado consumidor externo. Mas na realidade o que se observa é que a indústria nacional em determinados setores evoluiu de tal forma que hoje se destaca no cenário mundial, competindo em pé de igualdade com as empresas mais tradicionais.

 

Nosso(a) colunista Otto Nogami está conosco desde Qua, 23 de Janeiro de 2008.

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