Política, Economia, Sociedade, Internacional e Direito
| Euro, financeirização da riqueza e o papel da Alemanha na integração européia |
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| Economia | |||
| Escrito por Corival Alves do Carmo | |||
| Qui, 01 de Abril de 2010 00:00 | |||
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A crise grega tornou evidente a forma como algumas contradições do capitalismo contemporâneo se expressam na União Européia e também desvelou o papel contraditório da Alemanha no interior da União Européia.
Em primeiro lugar, a crise grega repõe o Estado e o mercado cada um em seu lugar. Ou melhor, repõe a hierarquia de interesses que devem ser preservados. A crise iniciada em 2007 pelo subprime americano se alastrou pelo mundo colocando em xeque os bancos e conjunto dos agentes financeiros. Qual a reação diante da ameaça do colapso dos bancos? Uma maior intervenção do Estado na economia para garantir a liquidez, os Estados foram chamados a injetar recursos no sistema através da política fiscal e da política monetária. A idéia era que os bancos, em particular, eram instituições por demais importantes que não poderiam quebrar, a vida econômica das famílias e empresas seria por demais prejudicadas se o custo do ajuste recaísse sobre os bancos ainda que tenham sido as práticas bancárias permissivas que causaram a crise.
Já diante da crise grega, o comportamento foi diferente. Inicialmente cabe pontuar que novamente os bancos estão envolvidos, o Goldman Sachs atuou junto ao governo grego de modo a viabilizar operações financeiras que mascaravam a realidade do endividamento grego. Esta ação ocorria desde 2001 quando a Grécia aderiu ao Euro e deveria seguir as regras da União Européia quanto ao endividamento, e continuou em 2009. A responsabilidade pela crise cairá sobre o governo grego, mas não se pode deixar de frisar que aparentemente a crise de 207-2008 não serviu para o aprendizado do banco Goldman Sachs e demais. As práticas anteriores rapidamente retornaram.
Isto evidencia outra realidade que transpareceu na crise financeira internacional. A debilidade dos Estados diante das finanças internacionais. Os Estados possuem autonomia para salvar os bancos, imporem mudanças de curto prazo para impedir o colapso do sistema. Entretanto os Estados não possuem condições de mudarem de forma estrutural a dinâmica das finanças internacionais e aí o novo caráter classista do Estado fica evidente. O setor financeiro internacional está no núcleo do bloco no poder para usar o termo de Poulantzas. Os interesses da burguesia financeira internacional estão suficientemente organizados em escala mundial para estarem fortemente representados no bloco no poder nos principais Estados capitalistas.
E isto nos devolve à crise grega, esta realidade se reflete no comportamento diferenciado dos países europeus em relação à crise da Grécia. Muitas vezes lemos, numa visão bastante otimista, que a União Européia seria mais do que um processo de integração econômica, seria uma rede de solidariedade entre os Estados europeus, um suporte para a solução coletiva de problemas. Na crise, a Grécia se encontrou sozinha. A solidariedade que existiu para se pensar planos de salvamento dos bancos em dificuldade na Europa, a flexibilização de regras do Banco Central Europeu na gestão monetária, a abertura para uma política fiscal ativa, nada disso existiu para a defesa da economia grega. Note-se que não foi apenas uma questão de restringir a oferta de recursos à Grécia, exigiu-se da Grécia uma política econômica ortodoxa. Veja a contradição, os bancos deveriam ser salvos, ajudados porque as famílias e as empresas não suportariam a falência dos bancos. Ora, as famílias e as empresas gregas têm condições de suportar a falência do Estado grego, o colapso da economia grega? Se novamente o Goldman Sachs estivesse em risco de falência por causa da crise na Grécia, faltariam recursos para o Goldman Sachs?
Por outro lado, temos a Alemanha que seria o núcleo da economia européia integrada desempenhando um papel bastante dúbio. Ao contrário do que se diz desde o início da integração européia não é possível dizer que as ações econômicas da Alemanha tenham favorecido o processo de integração européia no século XXI. A Alemanha impôs no processo de unificação monetária uma política ortodoxa em relação ao euro que favorece a valorização do euro em escala mundial que tem como conseqüência estimular o déficit em conta corrente nos Estados europeus, especialmente nas menores economias. Por outro lado, neste mesmo período a Alemanha passou a ser fortemente superavitária, a competitividade da economia alemã aumentou apesar da valorização do euro. Neste sentido, a Alemanha transferiu os custos das integração monetária para os demais Estados europeus e está ficando apenas com os bônus desta integração, ampliando o seu controle sobre os mercados europeus, e utilizando-os como plataforma para maior projeção no mercado mundial. Se anteriormente vários analistas entendiam que a Alemanha assumia os custos do processo de integração, pode-se dizer que hoje a Alemanha está realizando a cobrança, e o comportamento do governo alemão diante da crise grega apenas evidencia a mudança no posicionamento alemão. A Alemanha não parece disposta a se sacrificar pela integração. Mas não faltaram recursos para irrigar o sistema bancário alemão durante a crise. Portanto, parece que a prioridade é continuidade do processo de integração financeira internacional.
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