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I have a dream PDF Imprimir E-mail
Escrito por Danieli Machado   
Seg, 01 de Fevereiro de 2010 00:00

Nem doce nem salgado: os sonhos são fabricados com o que a História esqueceu. Outro dia Helena chorava. Calada. Quieta como sempre e de olhar atento para os fatos que lhe ocorriam à memória. Às vezes ficava cansada. Muito cansada. Intensamente cansada. Seus pensamentos não a deixavam relaxada. Helena cansa. Helena sonha.

 

 

Dessa vez ela sonhava que sorria e seu sorriso era o retrato refletido no ombro quando ela suspirava e percebia que a vida lá fora corria. O seu ombro sempre recebia com pesar as lágrimas que molhavam a sua felicidade. Mesmo assim, Helena acreditava que o espelho que as lágrimas traziam tinha uma finalidade. Servia para mostrar a ela que ela existia. Diga-se: verbo existir na primeira pessoa do singular e assim, ela se contentava com a tristeza quando pelo menos podia sorrir quando chorava.

Mas o que ela mais gostava de fazer era sonhar. Sonhava que era peixe, sonhava que era mar, sonhava que era céu e pássaro, mas nesses sonhos ela sempre deixava claro que ela gostava mesmo era de sonhar ser vento batendo forte em seu rosto durante as tardes dos dias de sol no verão. E assim ela sentia a felicidade alheia que ia e vinha naquele calor intenso. Aí ela se esquecia dos sonhos tristes e frios porque seus sonhos preferidos são os quentes, daqueles que deixam o céu bonito com os coloridos dos balões.

Helena é a pessoa que eu conheço que mais entende de sonhos e consegue adjetivá-los: outro dia me falou sobre sonhos doces e disse que desses não gostava porque engordava muito e eram pura fantasia. Disse-me que a padaria lá perto de casa estava cheia deles e se eu quisesse tocá-los tinha que pagar porque se não fosse assim, eu corria o risco de não mordê-los. Daí que preferi ficar apenas com a idéia de sua existência, pois decidi descobri qual poderia ser meu sonho predileto.

Diferente de Helena que já até sabe das cores dos sonhos e dos sabores, eu preferi inventar outro tipo de sonho: àqueles que a gente ver passando à nossa mente e que quando chegamos ao consultório do analista é repleto de letrinhas. Eu acho que esse é meu sonho preferido. Mas não tem cheiro e nem é doce. Esse é salgado porque lembra o sabor da lágrima da Helena.

Outro dia a gente estava conversando, eu e a Helena, e ela me lembrou de um tipo de sonho que foi proferido em 28 de agosto de 1963 lá em Washington e se transformou em um sonho com letrinhas, com sabor, e com saudade, mas que infelizmente ficou apenas um desejo de um sonho ser apenas sonho. Nesse mesmo momento em que a gente conversava, lembrei de outro sonho cantado em um LP do ABBA com o título I Have a dream, aconteceu durante o ano de 1979.

Paramos sentadas lá na sala de casa, o ABBA começou a tocar na vitrola, e eu e Helena nos demos conta de que há outro tipo de sonho que ninguém consegue decifrar, pegar ou até mesmo ver suas cores e sabores. Esse é o sonho que a História, essa inútil companheira nossa do cotidiano, não se deu conta de que o passado não importa mais porque o tempo que ele vive é bem diferente do exato segundo que acabei de transcrever nesta oração.

 

 

*Para Luther King

*Para o ABBA

 

Nosso(a) colunista Danieli Machado está conosco desde Qua, 23 de Junho de 2010.

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