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O desporto está muitas vezes mais próximo das questões que a disciplina de Relações Internacionais considera centrais, indo bastante mais além do que a beleza de um golo ou a velocidade de um carro de Formula 1 a 200km/h inicialmente sugerem.
Neste sentido, não podem ser ignoradas, sob pena de deixarmos por explorar uma parte significativa das dinâmicas sociais, culturais e económicas que afectam a realidade internacional contemporânea.O desporto tem, na nossa opinião, merecido um lugar menor no estudo das Relações Internacionais, no estudo das sociedades em sentido mais amplo. Falar em desporto é quase como falar em cinema ou teatro sem o prestígio intelectual (sobra o entretenimento). É no mínimo curioso tal desprezo por uma actividade humana responsável por 2% do Produto Interno Bruto da economia mundial, central na vida de milhões e milhões de pessoas - entre desportistas, adeptos ou meros espectadores. Não se pretende neste artigo procurar razões para a ausência de investigação nesta área, mas sim levantar algumas questões sobre o papel do desporto nas Relações Internacionais, focando a nossa atenção em três áreas de investigação merecedoras de especial atenção: o relacionamento entre Estado e desporto, as relações culturais entre as duas margens do Atlântico e as novas dinâmicas de relacionamento entre países desenvolvidos e economias emergentes.O Estado e o desportoEm muitos países, particularmente no Ocidente, o desporto é um dos veículos privilegiados de reprodução de sentimentos patrióticos e, em certos casos, nacionalistas, tanto através da ligação a equipas e atletas nacionais, como através da organização de eventos internacionais. É interessante observar que esta última dimensão (organizativa) parece ter ganho uma dimensão existencial para os Estados nas últimas décadas. As principais competições internacionais atraem agora inúmeros candidatos dos quatro cantos do globo, quer estejamos a falar dos Jogos Olímpicos ou do Campeonato do Mundo de ralis, ainda que a possibilidade de estes serem sucessos económicos e financeiros ser, por regra, bastante escassa. Por exemplo, na semana em que o Comité Olímpico Internacional decidiu quem seria o organizador dos Jogos Olímpicos de 2012, a revista britânica The Economist veio a público defender Paris como merecedora de tal evento, não por cortesia para com os ‘irmãos’ franceses, mas por achar que Londres pouco teria a ganhar com a organização do evento – não precisava de promoção a nível internacional e financeiramente os custos seriam claramente superiores a eventuais receitas. Infelizmente para o The Economist, Londres ganhou a organização do evento, estando já submersa em derrapagens financeiras e em perguntas sobre eventuais atrasos das obras. Atrasos e derrapagens financeiras são termos recorrentes em países que organizam eventos desportivos de alguma dimensão. A pergunta que se coloca é porquê. Porque fazem os países fila para a candidatura de um evento desportivo internacional se este parece não ser mais do que uma tremenda dor de cabeça organizativa sem grandes benefícios económicos? Será o prestígio e a publicidade associada ao evento compensadora de tamanho esforço? Uma análise aprofundada destas questões levar-nos-ia aos meandros do papel do Estado no mundo contemporâneo, à sua relação com a globalização e com as limitações à soberania que encontra em toda uma série de áreas. Relações Transatlânticas do desportoUma das dimensões mais interessantes do desporto é a forma como este é integrado na cultura de cada país, ao mesmo tempo que é completamente ignorado por outros países culturalmente próximos. Tal fenómeno não podia ser mais visível do que no relacionamento transatlântico. Desportivamente falando, o diálogo entre os dois lados do Atlântico assemelha-se mais a um diálogo de surdos do que a uma verdadeira relação de proximidade cultural. Muitos dos grandes ídolos desportivos norte-americanos são largamente desconhecidos na Europa, assim como o Cristiano Ronaldo nos EUA pode passar por um jogador latino de baseball de segunda divisão. O facto de, depois de mais de meio século de ‘americanização’ cultural da Europa, os três desportos mais populares na América – futebol americano, baseball e NASCAR –serem completamente minoritários ou mesmo desconhecidos na Europa merecia um estudo aprofundado à luz das noções de ‘soft power’ e proximidade cultural entre Europa e Estados Unidos. A esta americanização falhada, poder-se-ia acrescentar as recentes tentativas de aproximação dos desportos americanos à Europa e dos desportos europeus aos Estados Unidos (particularmente o futebol e em certa medida a Fórmula 1). A NFL, liga profissional de futebol americano, joga agora um encontro por ano em Londres a contar para o campeonato e já se fala na possibilidade de Londres passar a ter uma equipa em permanência. A NBA (liga de basquetebol) e a NHL (liga de hóquei no gelo) têm feito exactamente o mesmo por toda a Europa. Em resposta, em Inglaterra discute-se a possibilidade de incluir mais uma jornada na primeira liga inglesa que se disputaria na totalidade fora de Inglaterra, sendo os EUA e a Ásia os destinos preferenciais. Até que ponto assistimos a uma nova ‘americanização’ da Europa ou a algo mais complexo envolvendo processos de exportação e importação de desportos pouco conhecidos localmente, enviados nas asas da globalização dos meios de comunicação social, é mais um tópico que necessita ser explorado. Neo-colonialismo desportivoSe em relação ao quadro do relacionamento transatlântico parece haver um processo de influência desportiva mútua, em relação a outras partes do globo, o processo parece ser unidireccional. Nesse sentido, há uma espécie de ‘guerra fria’ desportiva, com americanos e europeus a tentarem exportar os seus produtos e campeonatos para o resto do mundo. O Extremo Oriente tornou-se o mercado predilecto das equipas de futebol europeias: as competições do velho continente merecem mais atenção que os campeonatos locais. Mesmo na América do Sul, o fluxo maciço de jogadores para a Europa faz com que estes campeonatos acabem por merecer uma atenção tão grande ou maior do que as próprias competições sul-americanas. O mesmo se passa em termos de basquetebol com os EUA, sendo que, até nessa área, a Europa começa a ganhar algum peso. Uma cadeira de televisão brasileira assinou um recente acordo de transmissão dos encontros do campeonato espanhol de basquetebol (ACB), visto que um dos melhores jogadores brasileiros da actualidade – Tiago Splitter – joga no campeão espanhol TAU Ceramica do País Basco.A este expansionismo desportivo-mediático-cultural, há, contudo, que acrescentar um novo fenómeno – o da activa participação de actores de países terceiros no mercado euro-americano do desporto. Em Inglaterra, tailandeses russos, americanos e árabes possuem ou possuíram clubes de futebol; competições como a fórmula 1 tiveram de alterar o seu calendário para incluir novos circuitos como o Bahrein, Malásia, China e Qatar; e o International Cricket Council mudou-se recentemente de armas e bagagens para o Dubai, onde um estádio ultra-moderno foi construído para a prática do cricket. Este será, inclusive, o estádio onde o Paquistão jogará os seus jogos de agora em diante até a situação no país voltar a permitir que equipas estrangeiras se possam deslocar em segurança ao Paquistão. A conjugação destas dinâmicas levanta interessantes questões sobre processos de neo-colonialismo cultural, assim como da sua relação com as dinâmicas económicas de potências emergentes. A tradução de um maior poder económico no reforço do domínio cultural-desportivo ocidental merecem, neste contexto, uma especial atenção.ConclusãoEstes foram só alguns dos inúmeros tópicos que necessitam de uma análise séria e cuidada por parte das Relações Internacionais. A estes poderíamos acrescentar a questão do desporto e a paz, da regulação global do desporto ou ainda do desporto como instrumento diplomático, entre outros. O que importa aqui salientar é o facto de o desporto estar muitas vezes mais próximo das questões que a disciplina considera centrais, indo bastante mais além do que a beleza de um golo ou a velocidade de um carro de Formula 1 a 200km/h inicialmente sugerem. Neste sentido, não podem ser ignorados, sob pena de deixarmos por explorar uma parte significativa das dinâmicas sociais, culturais e económicas que afectam a realidade internacional contemporânea.
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