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Quer como realização quer como recepção, a poesia é mistério.Como leitor e humílimo intérprete da criação poética, não viso de modo nenhum fornecer uma explicação desta construção poemática, porque jamais deifico a racionalidade como chave de acesso ao que se escreve e se lê, ao que se partilha e recebe, misteriosamente.
No que procuro dar a ver neste meu breve percurso pela poética de “Entre as Margens” de Maria Saturnino, anima-me tão só uma fórmula inserta em “Lettre du Voyant” de Rimbaud, a seguinte: “la poésie arrive à l’inconnu”. Nesse desconhecido embarco ao encontro do que é prévio ao racionalizante, ao que subterraneamente actua, em surdina, nos poemas deste livro de poemas em cujo mistério vibra uma vida, a da autora, que se transforma em sintaxe poética, em margens e veredas, que enleiam os arremedos, os fragmentos polimórficos, de uma totalidade de arrebatamento. Esta é construída, poema a poema, ponte a ponte, traduzindo o que, na redondez da obra, a Poeta deseja exprimir, o que sente como imperioso transmitir. Por isso mesmo, nunca a autora abdica ou decora com os adornos retóricos do disfarce a sua individualidade psicológica, o seu fluxo de lembranças e volições, o seu caleidoscópio de afectos e de emoções.Este livro “Entre Margens” surge-me, desde logo, como uma cristalização que nunca perde a sua fluidez, como se um vento de Levante insuflasse sem cessar arroios criativos nos cristais das palavras que, eminentemente, creio, desenham um “campo de amor” (p.24).“Entre margens me criei / E entre margens cresci” (p.16). Eis o mote leitmotívico desta obra que tenho entre mãos. Uma obra que, vivenciando e escrevendo por dentro dessas margens, não dissocia nas cruzadas geografias frequentadas pelos poemas, as tensões do sentido e da emoção. Pelo contrário, as fronteiras (a lembrar um título de José Eduardo Agualusa “Fronteiras Perdidas”) assomam indefinidas e moventes sendo afinal nos umbrais da poesia que o sonho das fronteiras ou margens comunicantes se retraça como linha estriada por abertas latitudes. Por isso diz a Poeta: “Mas sempre, sempre sonhando/ com a outra porta aberta/ Da outra margem também”. Deste modo, as latitudes enlaçam-se, osmoseiam-se, da mesma sorte que se colam aos palatos dos leitores os “sabores algarvios e os sabores africanos” (p.28), em que, numa evocação holística, o espaço e o tempo se contraem e, em simultâneo, se expandem.Nesses cruzamentos, no lugar ‘Entre’ destas Margens poéticas, esta obra em boa hora nos surpreende com a espontaneidade de uma lenta, límpida e morosa respiração; fascina-nos com a profundidade humana que ressuma neste labor poético (como exemplos, leiam-se os poemas “Noite Africana”, “Grilhetas”, “Campos de Algodão”, “Macala”, entre outros) irrigando um saber, um sabor, por afinidades e jamais pela fria e asséptica demonstração. Esta é exemplarmente trocada por uma cartografia de afectos, por uma modalidade de reconfiguração do enraizamento, brotando, justamente, de uma raiz aberta, de uma raiz fasciculada, aparentando-se a um rio do tempo que se bifurca apenas para aproximar, no sextante da navegadora-poeta, as margens da Ria Formosa e do Rio Limpopo, que harmonicamente confluem “no esquecimento de uma dor mortal/ De encontro a marés sem recordação” (p.35).Um tópico refluente desta obra diz respeito à persistência da saudade. Uma saudade que é força viva que, como torpedo ou mastro, abre um traço de união ao redor das margens, à volta de sabores e de cheiros, de gentes e de lágrimas, de rostos e de danças, de falares e de revoltas, de abandonos e de alegrias partilhadas, a que se juntam homenagens (aos poetas árabes de Al-Gharbe, aos poetas moçambicanos, aos poetas de Al Andaluz, aos poetas franceses), tudo convivendo, neste cadinho afectuoso, como as “mil estórias de encantar /que minha avó, cocuana, m’as contara sem parar” (p.39). É, pois, no vivíssimo âmago de tais evocações que os poemas deste livro de Maria Saturnino vão urdindo um lugar originário, que é um lugar de passagens, de um infrene vaivém que vai deixando em cada verso, nos abertos poros de cada poema, o seu rastro enquanto promessa de ponte, mesmo que tal ponte seja, como ocorre no poema com este título “Uma frágil ponte” (p. 38), conquanto, a meu ver, seja uma ponte movediça, uma metáfora viva (na acepção de Paul Ricoeur), um contínuo transporte, dado “que busca outros rumos, países d’além” (p.38) em que “farrapos d’alguém/procurando um porto … um outro lugar” (p.38). Um poema cuja coda, que é intensificada pelo uso anafórico da negação, exprime a constante ambivalência entre o passado e o futuro, entre a persistência da saudade e o penelopeano tecer da sua erosão: “Não tem limite, não tem horizonte/ Não tem farol, nem sequer um rumo/ Num céu sem estrelas, um risco de fumo/ única estrada … uma frágil ponte.” (p.38).Por conseguinte, é na forma vívida como Maria Saturnino erige pontes e conjuga os verbos do afecto que se torna possível vislumbrar uma distância que se faz, na orla do desejo, à beira da cristalina, fresca e rubra saudade, proximidade. Assim sendo, a proximidade na proximidade e a proximidade na distância plasmam-se num, não raro penoso e disfórico, triunfo sobre o esquecimento e sobre a dor nele entranhada. Mesmo se um tal esquecer é signo vivo de uma ilusão, ainda assim, lê-se no poema “Vamos Dançar”: “Do teu corpo faço/campo de amor, espaço de harmonia/ esquecendo quanto meu coração chora” (p.24). Por outro lado, este livro “Entre Margens” é igualmente, creio, um exercício de torneio da memória sob o signo da liberdade, da “liberdade livre” em sentido rimbaudiano. Ainda relativamente ao tópico da saudade, como volante e como embraiador da aproximação das margens, apraz-me esboçar a seguinte linha interpretativa: a assunção do sentimento saudoso pelo sujeito poético, seja em relação ao amor, aos espaços físicos revisitados, aos tempos evocados, é simultaneamente o testemunho de uma permanente vigilância face ao que está ontologicamente distanciado e que é o próprio Ser. Isto porque, nas fímbrias da fenda, nos interstícios da falta, nos sonhos incumpridos, quase sempre reverdeja o alento, para “na escuridão tornar a caminhar/sem teu amor aprender a viver” (p.57) e, deste modo, estamos perante uma aprendizagem exigida pela dor e pela perda, uma reaprendizagem do presente e do futuro que são modalidades de cicatrização de feridas que, embora não paralisantes do entusiasmo do porvir, continuam abertas e sangram. É essa indigência, existencial e ontológica, que enfatizo, socorrendo-me destes versos do poema “Somos” (p.54) que é, aliás, sintomático do hiato, da separação simbolizada pelo Mar que somente pela sua superação poética ou imaginária pode permitir a sutura das margens e o triunfo sobre a solidão: Somosdestroços de uma alma infelizórfãos que a vida maltratounegando o direito de viver felizquando tão cedo, o mar, nos separousomospobres vagabundos sem herança, um tecto, um calor, uma esperança.caminhando, a esmo, sem pararmesmo sabendo que não temos um lar! Eis um poema pautado por uma indigência que faz ecoar na minha experiência de leitor a interrogação de Hölderlin: “porquê os poetas em tempos de indigência?”. Arrisco-me a responder que talvez seja porque aos poetas, e Maria Saturnino dá-nos esse entendimento de forma muito bela neste seu livro, incumbe viver e exprimir essa indigência transfigurando-a, ou seja, fazendo do errático desenraizamento um encontro ou ponte com as fundas raízes afectuosas, transformando a carência num lugar, lar ou morada aberta onde os leitores podem, como felizes convidados entrar, pois sem o outro, diz a Poeta “que pobre era a minha mesa” (p.29), para um habitar mais autêntico. Eis o sentido de um encontro para além da fixidez das margens, eis a gestação da memória aquém das divisões e das fronteiras em que, desapossada, Maria Saturnino encontra nesta partilha com os leitores a diferida posse do que perdeu e nos abre, assim, um caminho que é o dela e passamos a reconhecer, mediatamente, no mistério da leitura, como também um pouco nosso. Ora, por onde deambulam as margens? Margens que ora se unem, num feliz hibridismo como ocorre no poema “Arja Molho” (neste poema, marcado pela convivialidade, pela comunhão de sabores e pela miscigenação de culturas, à mesa do poema assoma uma transfiguração da “mesa portuguesa” como se sobre ela ficassem sobrepostos, numa viagem de sabores, em que a arte poética da sinestesia surge como condimento essencial, os pigmentos da vocação universal da cultura portuguesa na sua funda espessura aberta a outras culturas, outros sabores, que tornam essa mesa uma espécie de ilha paradisíaca em que florescem, como no verso de Fernando Pessoa (in Mensagem) “as ilhas afortunadas [que] são terras sem ter lugar”. Desta forma, se misturam continentes e conteúdos: a pimenta-do-reino e os orégãos, o piri piri landim e o caril de Mormugão, a azeitona e a manga, canela de Goa e doce de goiabada, numa aliança “agridoce” que traça o elo imaginário, que neste livro se actualiza e resplende, plenamente concretizado no último verso do poema “Achar Agridoce”: “E as águas do Rio Gilão que banham o meu Sapal” (p. 29). Aqui se vislumbra o que mais tremeluz nas linhas de sombra desta obra de Maria saturnino, a saber: a vocação da poesia como catalisadora de pontes, cujos pilares mais fundos são a falta (que esbocei no tópico da saudade), o afecto (que é o cimento que dá coesão e a claridade que enobrece, atravessando todo o livro) e o alento, em que se conjugam nos versos os ventos que engolfam culturas e geografias num delta cujo vértice solar ou centro geodésico é, afinal, o sul, pois dele irrompe a distribuição das geo-grafias, no sentido de um telurismo nupcial ou mnemónico espírito dos lugares. Sul para que remetem os vocábulos que fazem o encontro das, usando o título do poema, “Quatro águas” (uma repartição quadripartida que é coalescente com as 4 partes que compõem as 4 partes ou tetralogia desta obra): vocábulos de Sul são então: as figueiras, o mar, os pássaros, a liquidez dos esteiros. Termino esta breve apresentação de “Entre Margens” sublinhando a função profundamente humanizante assumida na poesia de Maria Saturnino, pois geradora de enlaces e de quiasmas, de mestiçagens (na acepção de Mia Couto): a poesia é assumida como arma contra a injustiça, contra as “Grilhetas” (título de um poema que exibe “Cravadas na carne entumecida, as grilhetas do opróbrio”), em nome da liberdade, que é o grito que ressoa e inquieta no poema “Macala” e, sobremaneira, do amor, enquanto ponte das múltiplas pontes ou “Entre Margens” soerguidas, como modalidade privilegiada para vencermos a solidão e, justamente, em seu nome ou sob o seu signo, somos nós leitores, convocados a beber da taça que no poema “À Toi” permanece de pé, intacta, “contra ventos e marés” (p. 89) e na translucidez de seu cristal e limpidez do seu vinho chegamos, inebriados, ao último poema do livro “Rêve de Lumière”, verdadeiro e genuíno hino à esperança, à liberdade, à luz que não anula ou branqueia o sofrimento e as trevas, mas que, outrossim, as mitiga, subleva e transfigura: ofício maior de uma poesia maior, esta de Maria Saturnino.
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