Sob o signo do amor: a poesia, canto do mundo PDF Imprimir E-mail
Escrito por Luís Filipe Pereira   
Dom, 01 de Março de 2009 20:00
É um diálogo um pouco desesperado
      entre um homem e uma mulher
deitados sobre um leito com uma janela aberta
     para os astros e as árvores
O homem estava em silêncio dominado
    pela sensação de nulidade

e a mulher falava-lhe com uma intensidade
    fremente e ansiosa
para restabelecer a intimidade de uma afectuosa sintonia
libertando-o do peso obscuro da alteridade do nada
Através da janela um frémito uma respiração no espaço da noite
animavam a força da palavra da mulher
     e o homem sentia cada vez
no seu silêncio a relação vital entre o movimento e a imobilidade
Ela respirava a terra profunda e no meio da noite
     uma aldeia vermelha
Tudo lhe parecia iniciático a folhagem a lâmpada
     os murmúrios da noite
e de vez em quando o canto de um pássaro
     acompanhado por outro
Eles pressentiam através do veludo espesso da noite
o segredo do mundo e entre os ramos o fruto maduro
que cintilava com o fulgor do tempo
na sua plenitude e na sua cor
Ambos despertavam com o seu espírito da terra
     e na comum intimidade
reintegravam-se numa continuidade perdida mergulhavam
na matéria viva abrindo-se para a profundidade vital
     de dois espaços
e embora não gritassem sentiam no silêncio
     o grito maravilhoso da vida

António Ramos Rosa,
Poema inserto na obra “O Sol é Todo o Espaço” (Editorial Escritor, Lisboa, 2002, p. 13)  

 

“l’amour est le désir de l’amour demeuré désir”
René Char

Na efabulação poética deste “diálogo um pouco desesperado/entre um homem e uma mulher”, vislumbro uma construção poemática, convocando para o espaço do texto uma voz dialogizada, que me permite reflectir sobre a função e o estatuto da erotização da espacialidade e da temporalidade, enquanto coordenadas concêntricas, no interior da poética de António Ramos Rosa. 

 

“[D]eitados sobre um leito com uma janela aberta/para os astros e para as árvores”: eis como é subvertido o sentido denotativo de espaço fechado, dado que o espaço quotidiano é, desde logo, metamorfoseado pela energia erótica. Então, conotativamente, esse espaço infinitiza-se enquanto lugar de imagens ligadas ao desejo e, simultaneamente, eclode um tempo original e originário. É pois a alavanca de Eros que viabiliza uma estrutura espacial que é o anverso do espaço confinado e intranscendente. Do que se trata é de uma estrutura giratória ou germinativa que advém no poema como uma topologia da lídima relação amorosa, aquela em que a palavra, em seu anelo amante, se torna signo do Uno.

 

Saliento que os vocábulos “astros” e “árvores”, em sua pujança elementar e imagética, aparecem como talismãs naturais da verticalidade e cujo efeito poético se traduz numa contaminação de entre-espaços que aponta para uma transitividade constitutiva da tópica do desejo em António Ramos Rosa. Um desejo que se afigura, por excelência, como abertura a um Outro e reenviando para a metalógica do espaço amoroso, porquanto este abandona a rigidez do princípio da lógica clássica da não-contradição – da mesma sorte que abandona o redutor princípio da necessidade –, já que abre flanco para uma “lógica simétrica” (na acepção de MATTE-BLANCO), ou seja, uma lógica matricial e promotora da irrupção de uma alteridade partilhada: aquela em que os amantes tecem o encontro, o diálogo, a comunhão.

 

Por conseguinte, essa “lógica simétrica2 actua, em surdina, no poema “para restabelecer a intimidade de uma afectuosa sintonia/libertando-o [o homem] do peso obscuro da alteridade do nada [da aridez do vazio: da incomunicabilidade]”. Num tal espaço de envolvimento, que é espaço intensivo e não extensivo, afectivo e não efectivo, espaço que é, a um tempo, táctil, sensorial, sinestésico, carnal, estesiológico e, eminentemente, cósmico, eis que desperta – uma imagem que é, aliás, refluente na poética de António Ramos Rosa – a “lâmpada” do desejo, alumiando, como “caixa de ressonâncias” (permitindo-me usar uma expressão de R. Barthes) que colige em seu torno “os murmúrios da noite”, clareando, assim, os meandros do espaço afectivo/amoroso: um proto-espaço de cariz tendencialmente fusional, em que tudo “lhe parecia iniciático”.


Eis-nos portanto ao rés de um espaço inicial e iniciático, o qual inscrevo, tomando como referência exegética a classificação isotópica das imagens de G. Durand, nas estruturas/nervuras místicas do regime nocturno, aquelas em que, tal como vejo urdirem-se no tear afectuoso do poema, vai ocorrendo a tecedura do “veludo espesso da noite”. Adstrita à pulsação do desejo, que acompanha o fluir imaginal do fictivo diálogo ínsito no poema em análise, surge, assim, uma espacialidade que entendo como osmótica, visto que entaramela os elementos em que se enunciam, circularmente, o horizontal (leito, peso, terra) e o vertical (folhagem, pássaro, ramos, fruto).

 

Desta forma, este poema de António Ramos Rosa dá-nos a ver um infrene apelo do Uno, ficcionando-se enquanto inaugural e regenerador, ofertando-nos, a partir de uma espécie de jogo de luz e sombra em que ressoa o silêncio entre os anéis das palavras, o livre fulgor da presença do mundo, pois “Eles pressentem através do veludo espesso da noite/ o segredo do mundo”. E porque a palavra não possui uma imediatez carnal, pese embora a tremendez da sua exuberância corpórea, ela afigura-se como o devir de uma ressonância entre os amantes, sendo que o Um no Outro é transportado, metaforizado, na reciprocidade do canto de conjugados pássaros: “e de vez em quando o canto de um pássaro/ acompanhado por outro”.

 

É ao nível da imanência corporal que o diálogo dos amantes acede à transcendência, dado que a vibração polifónica dos amantes constitui um órgão de abertura à “matéria viva” do mundo, sendo de enfatizar que a “janela aberta” funciona no poema como cruzamento dos espaços interior e exterior, evolando-os, enfim, até ao espaço inteiro, para aquém e para além de um mero espaço referencial, aí onde se reflecte o firmamento, tornando-se, por essa via, a “lâmpada” como que um raio de luz natural que ilumina tudo em torno, desvelando a noite do mundo, a opacidade das palavras, mostrando um espaço de despossessão e de partilha: o da “comum intimidade”. Das árvores aos astros, da terra ao ar, do silêncio ao grito, dissemina-se a palavra amotinada pelo frémito amoroso e é, no fundo, a vida que, porosamente, circula, em dionisíaca dança, pois “a relação vital entre o movimento e a imobilidade [em que se misturam a actividade e a passividade, a palavra e o silêncio]” é a que melhor exprime uma experiência amorosa cuja pulsionalidade é permissiva da ‘desterritorialização’ (na acepção de G. Deleuze) do Eu e do Tu na comunhão total, plena, com o Outro.

 

É neste sentido que os amantes “reintegravam-se numa continuidade perdida mergulhavam/ na matéria viva abrindo-se para a plenitude vital/ de dois espaços”. Eis como o amor é poetizado em António Ramos Rosa como criação de espaçamento e do seu intrépido dialogismo. Então, os dois amantes, reunidos os dois movimentos de sinal contrário gravitando entre o silêncio e a palavra, aparecem como um só corpo reunido, dado que franqueiam a pesadez dos redutores redutos da identidade, até porque o diálogo se alcandora a canto do mundo através de um movimento centrífugo de aproximação à misteriosa, profunda, integralidade do ser. Assim sendo, a substância dos amantes abre para uma incandescente consonância: canto no canto ad infinitum, canto intercorporal que instaura a conciliação “de dois espaços” em cuja expansividade silente vibra “o grito maravilhoso da vida” em que nasce uma voz inicial, essa mesma que estava já, embrionária, nos poemas iniciais de António Ramos Rosa, em 1958, coligidos no pequeno caderno titulado como “O Grito Claro”, e que também já havia frutificado num ensaio do autor na Revista Árvore (de que o Poeta foi co-fundador no Outono de 1951), com o título “A Poesia é um diálogo com o Universo”.