| Academia, uma palavra que perturba |
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| Escrito por Paulo Milhomens | |
| 31-Dez-2008 | |
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“Nossa bolsa possui uma finalidade prioritariamente acadêmica e só secundariamente social”. Esta célebre argumentação foi proferida por alguém que intitula-se vice-coordenador de um programa de pós-graduação. Perfeito, instigou-me a redigir um texto sobre o tema. Ora, indaguei a este senhor se para ele, “academia” e “social” interagem. Sem dúvida, reconhecemos a instituição universitária como base de sustentação da grande estrutura social e capital, embora prefira ater-me à idéia de que não somos ‘totalmente’ obrigados a aderir o círculo dos maus vícios.Por isso mesmo, gostaria de dizer que a palavra academia é realmente mal interpretada por quase todas as pessoas, inclusive nas grandes esferas de poder. Não pretendo falar da ‘cara’ universitária do Brasil. Em instâncias do ensino público superior, majoritariamente composta pela classe média brasileira e seu pensamento pequeno-burguês: pouco ligada aos problemas emergenciais da grande massa (mas sempre alegando preocupação teórica) e contraditória em suas tomadas de decisão, particularmente no que concerne a reformas educacionais radicais. “Secundariamente social?”. Ora professor, seu posicionamento é claro: privilegiar departamentalismos, cartelismos políticos em detrimento da sociedade. Talvez isto seja mais importante para o senhor. Para mim, não! Quero deixar bem claro minha visão quanto a isso: educar não apenas para nos fazer pensar na ‘superestrutura’, mas, sobretudo, para exercer novas práticas, novos métodos de saberes e não apenas degustar vaidades efêmeras, egocentrismos isolados e tornar-se um/uma carreirista à moda colonizada. Aliás, reconheço o valor da sociologia européia, relembrando o grande geógrafo brasileiro Milton Santos: acreditamos mais em europeísmos e norte-americanismos para tentar resolver nossos problemas. Não estou propagando ideologia xenofóbica, mas defendendo um novo ato de questionar certas verdades estrangeiras ‘ilusionadas’ que nos fazem andar sempre em círculo ou ‘horizontalmente’, mas nunca ‘transversalmente’ no sentido pedagógico propriamente dito, atendendo um contexto latino-americano. Nos seus sete saberes necessários à educação do futuro, Edgar Morin nos mostra uma particularidade complexa, um ótima oportunidade para exercermos as mudanças ‘acadêmicas’ necessárias. Com minhas alunas/os, por exemplo, costumo dizer que quanto menos cartesiano, melhor!Penso que novos saberes pressupõem romper paradigmas e, claro, estratégias de execução. Não se trata de utopismos. Foucault não costumava dizer que os saberes devem ‘cortar’ para repensarmos a história? Paulo Freire, grande educador brasileiro, para citar outro exemplo, foi expulso do país durante o Regime Militar brasileiro (1964-85) por defender abertamente, já naquele momento, uma pedagogia libertária, coisa que uma ditadura de Estado jamais permitiria.Definitivamente, não posso considerar a opinião deste senhor como saudável socialmente. É curiosa a relação que muitos programas de mestrado e doutorado no Brasil têm com as chamadas práticas institucionais que privilegiam apenas um currículo.A meu ver, a origem etimológica do termo academia representa um poder cristalizado, arcaico. Pesquisa, ciência e humanidade podem substituí-la e delinear possibilidades de desvincular-nos dos ‘cães de guarda metodológicos’ e das normatizações ideológicas presentes nestes espaços. Como essa produção intelectual reflete sobre as camadas populares enquanto uma relação de benefício? Falo de partilha e conhecimento entre ambos os lados. É necessário redefinir o modelo conceitual de tais cursos no sentido de inserir um corpo docente menos reacionário, capaz de fazer oposição séria ao elitismo reinante e desenvolver possibilidades reais de mudança nestes corredores repletos de fetichismo. Ainda repousa uma insurgente preocupação: criar e alimentar espaços de mudança capazes de instigar a revolta num curto período de tempo, deveras necessária. Relembro Jean-Paul Sartre (1905-1980), filósofo e militante político francês ao se posicionar contra a ocupação francesa na Argélia na década de 1960. Poucos ditos acadêmicos na Europa manifestaram-se favoráveis ao sentimento libertário do povo argelino. Talvez o personagem central desse artigo, um certo professor, devesse urgentemente defrontar-se com influências sartreanas, mas se o leitor/a não compactua com o que leu, eu também recomendo...Fonte: http://www.revistaautor.com/index.php?option=com_content&task=view&id=351&Itemid=1 |
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| | Edição Brasileira ISSN 1677-3500 |
| | Edição Portuguesa ISSN 1646-8465 |